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Segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Apesar dos ganhos notáveis que as mulheres conquistaram na educação e no mundo do trabalho nas últimas décadas, o progresso foi desigual.

Giliane Greff

O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado hoje, dia 11 de fevereiro, foi instituído pelas Nações Unidas, em 22 de dezembro de 2015. Desde então, a UNESCO e a ONU Mulheres, em colaboração com instituições e parceiros da sociedade civil, promovem ações que fortalecem o acesso e a participação de mulheres e meninas na ciência.

Nos próximos 15 anos, a pesquisa científica vai desempenhar um papel fundamental no monitoramento de tendências relevantes em áreas como segurança alimentar, saúde, água e saneamento, energia, gerenciamento de ecossistemas oceânicos e terrestres e mudança climática. Em seu portal na internet, a UNESCO defende que as mulheres vão desempenhar um papel essencial na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ao ajudar a identificar problemas globais e encontrar soluções.

Apesar dos ganhos notáveis que as mulheres conquistaram na educação e na força de trabalho nas últimas décadas, o progresso foi desigual. De acordo com O Instituto de Estatísticas da UNESCO (UIS), apenas 28% dos pesquisadores do mundo são mulheres. As mulheres continuam sub-representadas nos campos da ciência, tecnologia, engenharia e matemáticas (STEM), tanto no âmbito da graduação quanto no âmbito das pesquisas. Mesmo nos campos científicos onde as mulheres estão presentes, elas pouco participam das decisões políticas, reconhece a organização.

Para falar um pouco sobre essa participação das mulheres na ciência, o Portal Adverso fez uma entrevista com a professora Nadya Pesce da Silveira, diretora do Instituto de Química da UFRGS. A pesquisadora acredita que o aumento da presença feminina na produção científica se deve a uma mudança cultural e ao ativismo das mulheres. Ela também destaca que ainda existem muitas questões a serem debatidas e melhoradas, como o reconhecimento de lideranças científicas, que sempre privilegia os homens, e a própria questão da maternidade.

 

Portal adverso - Qual a importância histórica da mulher na ciência?  

Nadya Pesce: A importância da mulher na ciência é inegável e ela tem que ser cada vez mais desvendada. Há dois séculos, a participação da mulher era muito pequena do ponto de vista das publicações científicas, mas já havia uma existência da participação das mulheres. Nós sabemos de mulheres que trabalharam há muito tempo ao lado de outros pesquisadores, mas elas eram vistas como colaboradoras, e não com igualdade de gênero.  

Então, a história que se conhece é muito influenciada pela forma como se relatou o processo da participação da mulher na ciência. De qualquer forma, de um século para cá isso mudou e, hoje, é bem diferente. Há uma participação ativa, e o reconhecimento do papel das mulheres e dos homens não se dá de uma forma igualitária. Por isso, outras questões precisam ser aprofundadas, como, por exemplo, a questão da maternidade. Pelo fato da mulher gestar a criança, ela tem um envolvimento inicial maior e precisa de uma estrutura adequada para continuar participando em condições de igualdade.

Portal Adverso - Existe alguma área específica onde as mulheres se destacam ?

Nádya Pesce - A distribuição de homens e mulheres nas áreas de pesquisa é relativa, pois depende muito da cultura de cada lugar. No Brasil, historicamente, a maioria participava das ciências consideradas menos duras, como a biologia, a enfermagem e a educação, mas isso foi mudando ao longo do tempo. Hoje, por exemplo, existe um grande número de mulheres na química, pois, anos atrás, os laboratórios brasileiros contratavam auxiliares, sendo a maioria mulheres. Então, se constituiu uma ideia de que a ciência química seria um assunto muito feminino. Talvez isso explique porque, no Brasil, existe um grande número de pesquisadoras que se projetaram, inclusive internacionalmente, nesta área da ciência.

Portal Adverso – Qual o principal obstáculo ao ingresso de mulheres em áreas consideradas tradicionalmente masculinas?

Nádya Pesce - Existem várias questões, como o tema do assédio sexual e, também, do assédio moral. No momento em que reconhecemos o assédio, percebemos que muitas mulheres passaram a vida toda, ou todo o seu tempo de trabalho, sendo assediadas. Isso é real. Não é uma invenção das mulheres. São atitudes que vêm da sociedade machista, culturalmente atrasada, patriarcal, que diz que mulher é isso e homem é aquilo. Então, os homens, muitas vezes sem perceber, têm atitudes machistas. Mas eu creio que isso está mudando graças ao ativismo e à participação das mulheres.

Na ciência, também existe o tema do reconhecimento das lideranças científicas. Hoje, no Brasil, a maioria dos pesquisadores do CNPQ, considerados excelentes, são homens, mesmo na área química, onde as mulheres são maioria. Isso não quer dizer que elas são piores, mas que o processo de reconhecimento da capacitação segue um padrão que é pensado do ponto de vista masculino. A mulher, de alguma maneira, tem modus operandi diferente do homem, e a forma como ela trabalha não é reconhecida. Mudar isso é um processo, que ainda precisa ser muito discutido.

Portal Adverso – O que mais poderia ser feito em termos de ações, para diminuir os obstáculos a uma maior participação feminina na ciência?

Nadya Pesce - Com relação à maternidade, algumas propostas estão em análise. Por exemplo, quando a mulher tem um filho, o reconhecimento da produção curricular seria relativizado, ou seja, por dois anos a sua produção científica seria julgada de maneira diferenciada, levando em conta a outra atividade desempenhada por ela, que é cuidar do filho.  

Na questão da participação em comitês de assessoramento científico e congressos internacionais, é necessário colocar cotas de participação de pesquisadoras, para que o trabalho delas, sendo mais expostos, tenham mais reconhecimento. É assim que vamos mudando a cultura de que é estranho determinado cargo ser exercido por uma mulher. Normalmente, as mulheres são relegadas a posições subalternas - de vice, até pouco tempo. Essa realidade precisa mudar, mas sabemos que não se muda do dia para noite, depende de muita participação e de muito apoio. Então, existe uma discussão sobre até onde vai o preconceito. Eu acho que estamos ultrapassando esses limites. Antes se acreditava que o homem era escolhido por ser mais competente, mas hoje se sabe que as mulheres têm a mesma competência e as mesmas condições, porém, naturalmente, a indicação ainda é de homens.

Perfil

Nadya Pesce da Silveira possui graduação em Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria (1981), mestrado em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1989), doutorado em Química pela Universität Bielefeld, na Alemanha (1994), e Pós-Doutorado na Université Joseph Fourier, Grenoble, França (2002). Atualmente é professora Titular do Departamento de Química Inorgânica do Instituto de Química da UFRGS, atuando principalmente na Química Geral e Diretora do Instituto de Química da UFRGS (2018). Já foi vice-coordenadora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Química da UFRGS e vice-chefe do Departamento de Química Inorgânica da UFRGS. Foi diretora-científica e diretora-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS).

 

 

Mulheres e meninas na ciência
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